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Do mutirão à desconfiança

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Os brasileiros e a solidariedade

POR

João Raia

·

8 min

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Se você pudesse escolher um superpoder, qual seria? Voar? Ler mentes? Parar o tempo?

Essa semana eu vi uma lista dessas circulando por aí, dessas meio bobas, meio reveladoras, e “ficar invisível” aparecia sempre no topo. Quem é fã de quadrinhos, vai lembrar da Mulher Invisível, do Noturno... outros podem lembrar do Senhor dos Aneis ou da capa de invisibilidade do Harry. É curioso como a ideia de não ser visto carrega uma fantasia de liberdade: ninguém te julga, ninguém te cobra, ninguém te pede nada. Você observa o mundo de fora, sem se comprometer.

Mas tem um outro lado dessa história que a gente quase nunca encara na vida real: ser invisível, de verdade, é péssimo. É péssimo especialmente quando você precisa de ajuda, de apoio, de assistência, de carinho. É péssimo quando você existe, mas ninguém te enxerga. É péssimo quando sua vida vira paisagem.

E talvez seja justamente aí que começa uma boa conversa sobre solidariedade no Brasil.

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Porque se tem uma coisa que a gente costuma repetir sobre nós mesmos é que o brasileiro é solidário. E, olhando de perto, isso não é mentira. Você deve ter visto também: quando algo grave acontece, o país se mexe. Foi assim nas enchentes do Sul, foi assim na pandemia, é assim sempre que a tragédia fica grande demais pra ser ignorada. Ajudar não é um problema cultural nosso. Pelo contrário. Existe um traço muito forte de empatia, de cuidado, de comunidade, que aparece no cotidiano mais banal: cuidar do filho da vizinha, dividir comida, fazer vaquinha, ajudar quem está ali do lado. Somos bons nisso. Esse calor humano, essa lógica do mutirão, do favor, do improviso solidário, fazem parte da nossa brasilidade mais profunda.

A coisa começa a mudar quando a solidariedade precisa virar dinheiro ou apoio institucional recorrente. A diferença é grande. A gente tem uma frente de branding e marcas de impacto aqui na Compadre e, conversando com parceiros e clientes do terceiro setor, um ponto é sempre recorrente nos desafios: como financiar essas organizações? Como mobilizar as pessoas? Enquanto ajudar alguém parece natural, doar dinheiro para uma instituição já ativa outro conjunto de sentimentos: desconfiança, medo, dúvida. Será que esse dinheiro chega mesmo? Será que alguém vai se aproveitar? Será que eu não estou sendo ingênuo? Nossa relação com dinheiro sempre foi atravessada por insegurança. Num país que aprendeu a desconfiar do futuro, o dinheiro vira proteção. Por isso, a gente prefere doar comida, roupa, tempo. Doar dinheiro exige um nível de confiança que nem sempre existe.

Essa tensão revela uma contradição interessante: somos quentes no contato humano, mas frios quando a solidariedade vira estrutura. Ajudar diretamente é simples, quase automático. Financiar algo que funciona no longo prazo, com camadas, processos e intermediários, já pede previsibilidade, transparência, constância. Três coisas raras numa cultura marcada pelo jeitinho, pela sensação de que tudo pode dar errado ou ser burlado. Se tudo pode ser contornado, tudo pode ser fraudado. E se tudo pode ser fraudado, melhor não arriscar.

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Existe hoje um campo minado simbólico em torno da doação no Brasil. Parte disso vem da forma como o assistencialismo passou a ser lido culturalmente, muito atravessado pela polarização política e por discursos que simplificam problemas complexos em frases como “não podemos dar o peixe, temos que ensinar a pescar”. Esse imaginário se soma a outros traços fortes do nosso tempo: o avanço do individualismo, a lógica do “agora sou eu”, a ostentação como prova de sucesso e, sobretudo, a desconfiança estrutural.

O brasileiro desconfia de instituições, de intermediários, de promessas abstratas. Dados recentes do Edelman Trust Barometer mostram um país em que a confiança é baixa e frágil, especialmente quando envolve organizações, governos ou sistemas que pedem adesão contínua. Nesse contexto, doar dinheiro não é apenas um gesto solidário: é uma decisão carregada de risco simbólico, atravessada por medo, cautela e dúvida. Não é falta de empatia; são barreiras culturais reais que tornam a doação um terreno sensível.

O paradoxo é que, mesmo com todas essas barreiras, a solidariedade encontra caminhos. E um dos mais fortes continua sendo a fé. Igrejas seguem concentrando uma parte significativa das doações no Brasil, funcionando como espaços de confiança, pertencimento e recorrência. Não é só uma questão religiosa, mas relacional: ali existe proximidade, narrativa compartilhada, senso de missão e impacto visível. Enquanto outras instituições lutam para provar legitimidade, a igreja já está inserida no cotidiano das pessoas. Isso escancara uma contradição brasileira interessante: desconfiamos do abstrato, mas confiamos no que faz parte da vida; rejeitamos estruturas impessoais, mas sustentamos aquelas com as quais nos relacionamos. A solidariedade não desapareceu; ela apenas escolhe caminhos onde a confiança parece mais tangível.

Os dados ajudam a dar contorno a esse cenário. O Brasil bateu recordes recentes em volume total de doações (cerca de R$ 24,3 bilhões ao longo do ano de 2024, segundo a Pesquisa Doação Brasil IDIS), mas segue com baixa recorrência e fidelização, caindo de 69% em 2015 para 49% em 2024. Somos um país que ajuda muito no cotidiano, que aparece bem em indicadores de ajuda direta a estranhos, mas que ainda converte pouco essa solidariedade em doações estruturadas e contínuas. Segundo o World Giving Index 2024, da CAF: 65% dos brasileiros dizem ter ajudado um estranho, mas só 26% doaram dinheiro no mesmo período. A tecnologia facilitou o gesto pontual, mas não resolveu o problema da confiança. No fundo, o brasileiro já é solidário. O desafio não é ativar esse traço, e sim entender como ele pode atravessar as barreiras culturais, simbólicas e institucionais que hoje fazem da doação um gesto esporádico — e não uma relação de longo prazo.

Enquanto isso, quem trabalha com causas insiste, muitas vezes, numa estética que já mostra sinais claros de esgotamento: a estética da tragédia e do desespero. A imagem da criança faminta, da casa destruída, do desespero explícito ainda mobiliza, mas só por um tempo curto. Ela até gera urgência, mas não necessariamente vínculo. Aos poucos, tudo começa a parecer igual - e a se invisibilizar (como, infelizmente, acontece a muitas pessoas que vivem em grandes cidades e passam a ignorar as pessoas em situação de rua). Toda causa vira a mesma causa. Todo pedido soa como mais um.

Quando tudo é desespero, nada mais toca. O choque contínuo produz entorpecimento, e a doação passa a funcionar como saída de emergência emocional, um “eu fiz a minha parte” que encerra o desconforto, mas não cria vínculo. A doação vira anestesia: um gesto rápido para silenciar o incômodo, aliviar a consciência e seguir em frente, sem que a causa realmente atravesse.

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Talvez o problema central não seja falta de visibilidade, mas o tipo de visibilidade que se constrói. Pessoas em situação de vulnerabilidade aparecem o tempo todo, mas quase sempre como vítimas genéricas, sem nome, sem história, sem futuro. Continuam invisíveis, mesmo quando estão no centro da imagem. Solidariedade de longo prazo pede outra coisa. Pede relação, identificação, continuidade. Pede sair da lógica do “salve agora” e entrar na lógica do “construa junto”.

Isso passa, por exemplo, por aproximar a doação do cotidiano. Em vez de falar de valores abstratos ou cifras que parecem grandes demais, falar de escolhas simples: um pedido a menos no delivery, um café que vira outra coisa, um pequeno hábito deslocado. Não como culpa, mas como tradução. Quando a doação entra na lógica da vida real, ela deixa de ser um gesto excepcional e vira prática possível. Menos heroísmo, mais rotina.

Outra chave potente está na localização. A solidariedade brasileira cresce quando o impacto é visível, quando o efeito pode ser percebido, quando a ajuda parece próxima. O abstrato gera desconfiança; o concreto gera vínculo. Não é à toa que o brasileiro confia mais quando sabe onde, com quem e como aquilo acontece. Comunidade, território, bairro, escola, coletivo. Ajudar “alguém como eu”, ou alguém que poderia ser eu, ainda é um motor forte da empatia.

É aí que o papel das marcas fica interessante. Não como mediadoras morais nem como exploradoras da dor alheia, mas como construtoras de confiança. Num país em que as empresas aparecem, paradoxalmente, como instituições mais confiáveis do que governos e ONGs, isso é uma responsabilidade enorme.

Talvez o caminho não seja pedir mais, mas traduzir melhor. Tornar o impacto visível, local, próximo. Criar rituais simples, recorrentes, quase cotidianos. Trocar o apelo da culpa pela construção de pertencimento. Menos estética do desespero, mais estética da continuidade. Menos invisibilidade, mais relação.

Tudo isso aponta para um deslocamento importante: sair da lógica do constrangimento e entrar na lógica do pertencimento. A pergunta deixa de ser “você não vai ajudar?” e passa a ser “você quer fazer parte?”. Uma coisa cobra, a outra convida. Uma gera ação pontual, a outra constrói permanência. Uma ativa culpa, a outra ativa compromisso.

No fundo, talvez o maior desafio não seja convencer o brasileiro a ser solidário - isso ele já é. O desafio é transformar essa solidariedade quente, relacional, imediata, em algo que também consiga sustentar o longo prazo, sem perder sua alma. Criar narrativas que não explorem a invisibilidade como apagamento, mas como algo a ser rompido. Tornar visível não só a dor, mas a vida que continua. Não só o problema, mas o caminho. Porque quando a solidariedade vira relação, ela deixa de depender do choque. E passa a existir mesmo quando o mundo não está em colapso.

No fim das contas, solidariedade não é um impulso, é um vínculo. E vínculo não nasce do susto, nasce da convivência. Talvez o desafio esteja justamente em sair da lógica que torna pessoas e causas visíveis apenas no colapso, para construir narrativas que as tornem visíveis também quando a vida está acontecendo. Porque invisibilidade não é falta de imagem, é falta de relação.